A Piqueta Centenária de Amyr Klink
- Clube da Cutelaria

- há 20 horas
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Alguns objetos carregam muito mais do que sua função original. Eles carregam lugares, pessoas, aventuras e, principalmente, histórias.

Para Amyr Klink, uma dessas peças é uma antiga piqueta de gelo encontrada na Antártica durante sua primeira viagem ao continente, em 1986.
Naquela época, Amyr ainda estava começando sua relação com a Antártica. Ao chegar a uma base brasileira a bordo do navio polar Barão de Tefé, encontrou um veleiro francês que já conhecia do Rio de Janeiro. O barco o fascinava tanto que o comandante da expedição brasileira percebeu que talvez ele aprendesse mais embarcando naquele veleiro do que permanecendo na base.
Amyr aceitou o convite e passou 88 dias navegando com a tripulação francesa.
A viagem não foi simples. A convivência entre os tripulantes era difícil e um dos integrantes acabou entrando em depressão e deixando o veleiro quando chegaram de volta ao mundo civilizado.
Mas foi durante essa expedição que Amyr encontrou um objeto que o acompanharia por décadas.
Em determinado momento, o veleiro parou em uma pequena baía. Amyr decidiu caminhar até uma antiga base britânica abandonada, localizada a alguns quilômetros dali.
Era uma caminhada perigosa. O caminho passava por encostas de gelo e regiões com enormes fendas — as famosas crevasses — capazes de engolir uma pessoa.
E foi justamente naquele lugar remoto, longe de qualquer ser humano, que ele encontrou uma velha piqueta de gelo.
Primeiro, ficou impressionado com a ferramenta. Depois percebeu por que alguém a havia abandonado: o cabo estava quebrado.
Amyr, que gostava de trabalhar com madeira, resinas e adesivos técnicos, imaginou que poderia consertá-la. Naquela época, a retirada de objetos abandonados na Antártica ainda não estava sujeita às regras rígidas que existem atualmente.
Hoje, retirar qualquer objeto, pedra ou lembrança da Antártica seria proibido. A preservação do continente exige que aquilo que está lá permaneça lá.
Mas aquela piqueta acabou seguindo outro caminho.
Anos depois, ao restaurá-la e retirar a ferrugem, Amyr conseguiu finalmente ler as inscrições gravadas no metal: Robert Law, London — Made in Switzerland.
A descoberta despertou sua curiosidade.
A ferramenta havia sido fabricada na Suíça, mas trazia a identificação de Robert Law, um conhecido alpinista e fornecedor britânico de equipamentos para expedições.
Pesquisando sua origem, Amyr descobriu uma conexão fascinante com a história das grandes explorações da Antártica. Robert Law teria fornecido equipamentos para expedições britânicas que fizeram história no continente, incluindo as associadas a nomes como Scott e Shackleton.
A piqueta provavelmente foi fabricada por volta do final do século XIX ou início do século XX.
Ou seja: quando Amyr a encontrou na Antártica, ela já poderia ter mais de 80 anos. Hoje, a peça tem mais de um século de história.
E ela não ficou apenas como objeto de coleção.
Nas viagens seguintes, Amyr preferiu continuar levando aquela velha ferramenta consigo, mesmo quando já existiam equipamentos modernos, mais leves e fabricados com materiais de alta tecnologia, como fibra de carbono e aços especiais.
A razão é simples: ela funciona.
Durante desembarques no gelo, uma embarcação não pode simplesmente lançar uma âncora tradicional. É preciso encontrar uma maneira de prendê-la ao gelo. A velha piqueta serve justamente para isso: é cravada no gelo e utilizada para manter o bote próximo ao ponto de desembarque.
Ao longo dos anos, a ferramenta acabou participando de centenas de situações.
Ela enferruja, é limpa, volta a ser usada e continua acompanhando as expedições.
Mais do que uma ferramenta centenária, tornou-se parte da história do veleiro Parati e das próprias aventuras de Amyr Klink.
Talvez seja isso que torne alguns objetos tão especiais.
Eles deixam de ser apenas ferramentas e passam a ser testemunhas.
Aquela piqueta já estava na Antártica muito antes de Amyr chegar. Sobreviveu a décadas de abandono, foi encontrada por acaso, restaurada e voltou ao gelo — desta vez acompanhando novas expedições.
Uma peça com mais de cem anos que continua fazendo exatamente aquilo para que foi criada.
Prender alguém ao gelo, atravessar o tempo e continuar contando histórias.
Amyr Klink
É um navegador, escritor e empreendedor brasileiro, nascido em São Paulo em 1955. Sua paixão pelo mar começou ainda na infância, quando frequentava Paraty e comprou sua primeira canoa aos 10 anos.
Ele ficou conhecido mundialmente por realizar, em 1984, a primeira travessia solitária do Atlântico Sul a remo, passando 100 dias no mar. A experiência deu origem ao livro Cem Dias entre Céu e Mar.
Depois, dedicou-se principalmente às regiões polares. Em 1989, partiu sozinho no veleiro Paratii para uma expedição que durou 642 dias, incluindo uma invernagem de cerca de sete meses e meio na Antártica. Também realizou uma circunavegação polar em 88 dias, em 1998–1999.
Mais do que um aventureiro, Amyr Klink é conhecido por defender que grandes expedições dependem de planejamento, preparação, engenharia e disciplina. Suas viagens e livros transformaram experiências extremas no mar em histórias sobre planejamento, superação e relação com a natureza.
Amyr Klink é um dos principais navegadores brasileiros, conhecido por transformar desafios aparentemente impossíveis em projetos cuidadosamente planejados — e por levar suas experiências dos oceanos para milhões de leitores.



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