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Leuku: Faca do Povo Sami - Amyr Klink

A faca que atravessou quase 40 anos de aventuras com Amyr Klink

Alguns objetos deixam de ser apenas objetos. Com o tempo, passam a carregar histórias, lugares, pessoas e momentos que jamais caberiam em uma fotografia.



É o caso de uma pequena faca tradicional do povo Sami, que vive no extremo norte da Escandinávia, em regiões da Noruega e da Suécia, próximas ao Ártico.

Há cerca de 37 anos, durante uma de suas primeiras viagens pelo Ártico, o navegador Amyr Klink comprou a faca. Naquele momento, provavelmente não imaginava que estava adquirindo algo que o acompanharia durante décadas e em algumas das viagens mais extraordinárias de sua vida.


A faca é um modelo tradicional Sami, produzido há séculos praticamente da mesma maneira. Seu cabo é feito de madeira, possui uma proteção de latão e sua bainha é confeccionada com couro de rena — um animal fundamental para a cultura e a sobrevivência desse povo do norte.

Depois de comprá-la, ele amarrou a faca em um dos postes da entrada de seu veleiro, o Parati. E ali ela permaneceu durante anos.


O barco passou por reformas, períodos parado, novas viagens e inúmeras aventuras. A faca continuou ali, pendurada na entrada, mesmo quando diferentes pessoas entravam e saíam do veleiro.

Durante a pandemia, o barco chegou a ficar preso por três anos. Ainda assim, quando o navegador finalmente voltou para buscá-lo, encontrou a velha faca exatamente onde a havia deixado.

Mais do que uma ferramenta, ela acabou se tornando parte da própria história do barco.


Ao longo dos anos, foi usada para praticamente tudo: cozinhar, preparar churrascos, cortar cabos, fazer reparos e resolver pequenos problemas que surgiam durante as viagens. Uma ferramenta simples, mas que estava presente nos momentos cotidianos e também nas grandes aventuras.

Entre essas aventuras está uma viagem ao extremo norte. O navegador chegou a aproximadamente 82° de latitude norte, ao norte do arquipélago de Svalbard. Foi uma marca que ele nunca mais conseguiu repetir.


Naquela época, a região ainda era diferente do que é hoje. Atualmente, existem restrições importantes para a navegação e regras específicas de segurança devido à presença de ursos-polares.

E foi justamente um encontro com um desses animais que rendeu outra história.

Durante uma expedição, um casal francês de pesquisadores estava em um pequeno bote inflável próximo à costa. Um urso-polar apareceu de repente. O animal se aproximou, destruiu o bote e acabou levando consigo um arenque que o casal havia pescado.

Felizmente, ninguém ficou ferido. O navegador encontrou os pesquisadores e os levou de volta em segurança.


E, quando perguntaram como ele havia conseguido navegar sozinho naquela região sem uma arma adequada para se proteger de ursos, a resposta foi bem-humorada: se um urso aparecesse, ele tinha aquela velha faca Sami.

É claro que uma faca não seria uma proteção real contra um urso-polar. Mas a história mostra o tamanho do significado que aquele objeto adquiriu.


A faca acompanhou o Parati em viagens pelo Ártico e pela Antártica, enfrentou frio, sal, ferrugem, reformas e décadas de uso.

Hoje, ela pode até precisar de uma limpeza e de um pouco de cuidado para retirar a ferrugem. Mas suas marcas são também marcas de uma vida de aventuras.

Talvez seja justamente isso que torne determinados objetos tão especiais.

Não é o valor financeiro da faca que importa. É tudo aquilo que ela testemunhou.

Quase 40 anos de viagens.

Milhares de quilômetros navegados.

Ártico e Antártica.

Tempestades, encontros, descobertas e imprevistos.

Uma pequena faca que começou como uma compra durante uma viagem acabou se transformando em uma espécie de testemunha silenciosa de uma vida inteira dedicada ao mar e à exploração.



Amyr Klink

É um navegador, escritor e empreendedor brasileiro, nascido em São Paulo em 1955. Sua paixão pelo mar começou ainda na infância, quando frequentava Paraty e comprou sua primeira canoa aos 10 anos.

Ele ficou conhecido mundialmente por realizar, em 1984, a primeira travessia solitária do Atlântico Sul a remo, passando 100 dias no mar. A experiência deu origem ao livro Cem Dias entre Céu e Mar.


Depois, dedicou-se principalmente às regiões polares. Em 1989, partiu sozinho no veleiro Paratii para uma expedição que durou 642 dias, incluindo uma invernagem de cerca de sete meses e meio na Antártica. Também realizou uma circunavegação polar em 88 dias, em 1998–1999.

Mais do que um aventureiro, Amyr Klink é conhecido por defender que grandes expedições dependem de planejamento, preparação, engenharia e disciplina. Suas viagens e livros transformaram experiências extremas no mar em histórias sobre planejamento, superação e relação com a natureza.

Amyr Klink é um dos principais navegadores brasileiros, conhecido por transformar desafios aparentemente impossíveis em projetos cuidadosamente planejados — e por levar suas experiências dos oceanos para milhões de leitores.

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