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As Facas de Amyr Klink e a Arte de Abrir Ostras


A relação de Amyr Klink com as ostras começou ainda na infância, influenciada pelo pai, que costumava navegar de Paraty até o Saco do Mamanguá para comer as enormes ostras encontradas nos manguezais da região.

O pai de Amyr tinha um amigo chamado Jacques, que havia trabalhado na França com cultivo de ostras. Ao conhecer as ostras gigantes do Mamanguá, Jacques ficou impressionado e posteriormente passou a trabalhar com o cultivo em Cananéia. Ele chegou a tentar cruzar a ostra nativa brasileira, Crassostrea brasiliana, com a Crassostrea gigas, originária do Japão.

Anos depois, porém, as ostras do Mamanguá morreram misteriosamente. Toda aquela população desapareceu, e até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu.

A história despertou em Amyr uma paixão duradoura pelo universo das ostras — e, principalmente, pelas ferramentas usadas para abri-las.

Da faca Tramontina às ferramentas próprias

No começo, Amyr utilizava uma simples faca Tramontina para abrir as ostras. O método, porém, exigia habilidade e podia causar acidentes.

Abrir uma ostra não depende apenas de força. É preciso encontrar o ponto exato onde as conchas se fecham e introduzir a lâmina no lugar correto. A ostra de Cananéia é ainda mais difícil porque sua concha é bastante irregular.

Amyr também tinha uma dificuldade adicional: sofreu um acidente na mão direita em 1980 e perdeu parte da força e dos movimentos de torção. Isso o levou a procurar soluções diferentes.

Inspirado por ferramentas francesas, começou a modificar e fabricar seus próprios abridores, criando pequenas alavancas que facilitavam o movimento. Algumas peças eram ferramentas quebradas que ganharam novos cabos ou estruturas. Uma delas recebeu até um pedaço de uma extrusão utilizada na construção do veleiro Paratii 2.

Assim nasceu uma coleção que hoje reúne cerca de 70 facas e ferramentas para abrir ostras.

Milhares de ostras e enormes pilhas de conchas

A experiência transformou Amyr em um especialista na abertura de ostras. Em determinado ano, ele chegou a abrir cerca de 3.500 ostras no restaurante Jabuti, em São Paulo.

Ele também desenvolveu uma curiosa tradição: guardar as conchas e construir enormes pilhas sobre a mesa. Algumas chegaram a ultrapassar um metro de altura, e uma delas atingiu aproximadamente 1,30 metro.

A brincadeira chama a atenção dos outros clientes, que muitas vezes começam a pedir ostras apenas para ver até onde a pilha consegue chegar sem cair.

Para Amyr, a ostra de Cananéia é mais difícil de abrir do que a japonesa, mas também é mais saborosa e resistente.

Ferramentas que contam histórias

Mais do que uma coleção de facas, as ferramentas de Amyr representam uma combinação de função, ergonomia, criatividade e história.

São instrumentos franceses adaptados, peças quebradas que ganharam uma segunda vida e ferramentas criadas para resolver uma necessidade específica.

É justamente esse tipo de objeto que desperta o interesse de quem aprecia cutelaria: uma ferramenta simples, mas aprimorada pela experiência de quem já abriu milhares de ostras.

No fim, sua coleção é também uma coleção de histórias do mar — iniciada nas ostras gigantes do Saco do Mamanguá e que continua, décadas depois, em cada faca e ferramenta utilizada por Amyr Klink.



Amyr Klink

É um navegador, escritor e empreendedor brasileiro, nascido em São Paulo em 1955. Sua paixão pelo mar começou ainda na infância, quando frequentava Paraty e comprou sua primeira canoa aos 10 anos.

Ele ficou conhecido mundialmente por realizar, em 1984, a primeira travessia solitária do Atlântico Sul a remo, passando 100 dias no mar. A experiência deu origem ao livro Cem Dias entre Céu e Mar.


Depois, dedicou-se principalmente às regiões polares. Em 1989, partiu sozinho no veleiro Paratii para uma expedição que durou 642 dias, incluindo uma invernagem de cerca de sete meses e meio na Antártica. Também realizou uma circunavegação polar em 88 dias, em 1998–1999.

Mais do que um aventureiro, Amyr Klink é conhecido por defender que grandes expedições dependem de planejamento, preparação, engenharia e disciplina. Suas viagens e livros transformaram experiências extremas no mar em histórias sobre planejamento, superação e relação com a natureza.

Amyr Klink é um dos principais navegadores brasileiros, conhecido por transformar desafios aparentemente impossíveis em projetos cuidadosamente planejados — e por levar suas experiências dos oceanos para milhões de leitores.

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